Hábitos alimentares do cachorro

(Texto adaptado do livro Encyclopedia of Canine Clinical Nutrition, dos autores Pascale Pibot, Vincent Biourge e Denise Elliott)

O comportamento alimentar dos cães é, geralmente, cercado de interpretações equivocadas. Normalmente, o acesso ao alimento faz parte de um ritual, e requer uma comunicação bem desenvolvida entre os cachorros. Para os homens, o acesso aos alimentos e o hábito de comer possuem um valor social, fazendo as pessoas se alimentarem por outras razões que não a fome. Com a domesticação dos cães, nós os colocamos como semelhante em relação à alimentação - a gestão da comida é guiada por uma necessidade de comunicação, e não de fome. Apesar de existirem muitas semelhanças entre a comunicação do homem e do cachorro, as pequenas diferenças são responsáveis por importantes enganos que implicam no surgimento de problemas comportamentais.

Nas matilhas, o acesso ao alimento está relacionado à hierarquia. O cão alfa, que controla a reprodução do bando, é o primeiro a se alimentar, podendo selecionar as melhores partes do alimento. Isso é importante pois assim é garantida a continuidade da melhor seleção genética. Esse comportamento também tem um forte papel social, pois faz com que os demais cachorros do bando aguardem pacientemente a sua vez de comer. Portanto, o controle da comida é um símbolo de elevado status social dentro da matilha. Além disso, durante a alimentação, alguns comportamentos servem para a comunicação entre os cães - um cachorro que implora à mesa pode estar fazendo isso não por fome, mas para mostrar que possui acesso aos recursos da matilha.

Na sociedade humana, o comportamento alimentar também é cheio de significados. Convidar alguém para almoçar à sua mesa significa amizade. No exército, as pessoas são separadas durante as refeições conforme a hierarquia. Ainda, há ocasiões que a boa educação faz com que as pessoas se misturem durante uma refeição, como no caso dos chefes para mostrar que não há uma grande barreira entre eles e seus empregados. Portanto, o ato de se alimentar também é um símbolo de poder ou de interação social.

Quando o cão e homem convivem no mesmo ambiente, geralmente este ignora os fatores que envolvem o comportamento e a comunicação canina no ritual da alimentação. As interpretações humanizadas geralmente resultam nas alterações comportamentais que se seguem. Os erros têm início logo cedo, com o dono oferecendo petiscos para ganhar a afeição do filhote. Os hábitos são formados rapidamente no cachorro e no homem, com a dono tentando satisfazer o cão com diferentes alimentos, enquanto que o cachorro tenta ganhar o melhor status social na matilha. A relação entre ambos se reduz a trocas por comida, o que permite ao dono utilizar o alimento como forma de se desculpar por seus erros - por estar ausente, por não ter tempo para passear ou brincar com o cão. O ato de convidar o cachorro para compartilhar o alimento é, ao mesmo tempo, um gesto de estima social e uma maneira de ganhar o coração do animal. Aos poucos, o hábito de oferecer alimentos vira um ritual. Além de dar origem às alterações comportamentais, esse hábito pode levar a desordens nutricionais e hormonais, como a obesidade e diabetes.

A utilização de alimentos, como petiscos, como forma de recompensa é amplamente utilizada como forma de adestramento ou condicionamento. O comportamento deve ser estimulado e reforçado com recompensas. Inicialmente, a recompensa deve ser oferecida a cada 2 ou 3 vezes. Posteriormente, a recompensa deve ser dada de forma aleatória, para evitar que o comportamento desapareça quando a recompensa não for oferecida. Dessa forma, muitos donos acabam ensinando seus cães como implorar à mesa, uma vez que acabam oferecendo o alimento algumas vezes, parando por completo em seguida e, posteriormente, voltando a oferecer de forma aleatória - assim como deve ser feito durante o adestramento.